Os 50 anos de África ”livre”

O Estado de S. Paulo

Em 1960, 17 países africanos ficaram independentes, mas o histórico aniversário tem passado despercebido

Na semana passada, numa elegante cidade da Riviera Francesa, líderes africanos reuniram-se com o presidente da França, Nicolas Sarkozy, para um tradicional encontro de cúpula, ritual cercado de promessas de amor e, o que não é de espantar, algumas insinuações caluniosas. Mas uma importante data no calendário parece ter sido esquecida: os 50 anos de independência de muitos países da África.
Inversamente a toda a extravagância observada na Riviera Francesa, onde os líderes chegaram acompanhados de suas grandes comitivas, esse aniversário passou totalmente despercebido. Poucas celebrações oficiais foram organizadas para lembrar a passagem de cinco décadas desde que a França, provisoriamente, deixou, mas mantendo muitos laços, 14 de suas colônias; ao todo, 17 países africanos, incluindo a Nigéria, ficaram independentes em 1960.

Talvez a comemoração coletiva mais importante, paradoxalmente, não tenha se realizado na África. Líderes do Senegal, Mali, Níger, Costa do Marfim, Benin, Togo, Burkina Fasso, Camarões, Mauritânia, Gabão, República do Congo, República Central Africana, Chade e Madagáscar foram convidados a Paris para desfilar na Avenida Champs Elysées no 14 de julho, feriado nacional do ex-governo colonial.

Na África, as poucas comemorações até agora com frequência estão carregadas de muita ambiguidade. Num dos raros grandes eventos comemorativos, o presidente Abdoulayé Wade, do Senegal, inaugurou uma gigantesca estátua de bronze simbolizando o “Renascimento Africano”, numa colina deserta perto do aeroporto. Construída por uma empresa norte-coreana no puro estilo do realismo soviético, o monumento é quatro metros mais alto do que a Estátua da Liberdade e suas três figuras gigantescas – um homem, uma mulher e uma criança – destacam-se na redondeza.

Mas a inauguração da estátua provocou muita polêmica, em vez de fazer extravasar o orgulho pan-africano esperado por Abdoulayé Wade: desde o seu custo, num país que ocupa a 166.ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), até as próprias figuras, quase desnudas, num país avassaladoramente muçulmano (os imãs locais lançaram um vigoroso protesto). E ainda há a estética duvidosa que lembra mais a Rússia stalinista do que a cultura afro-islâmica do Sahel. Senegaleses chegaram a questionar se aquelas figuras pareciam mesmo africanas.

Abdoulayé Wade disse que, em troca da estátua, apenas cedeu terras do Estado para os norte-coreanos. O custo total do trabalho teria ficado entre US$ 27 milhões e US$ 70 milhões.

Para alguns analistas, as contradições envolvendo o monumento simbolizam as dúvidas quanto ao significado desse aniversário. Trata-se de um projeto de construção monumental que foi encomendado de estrangeiros e inaugurado numa cerimônia, em abril, com a participação de líderes como Robert Mugabe, do Zimbábue, e Laurent Gbagbo, da Costa do Marfim – dois presidentes que são objeto de escárnio internacional.

“Essa monumentalidade é um tanto inapropriada”, disse Ibrahima Thioub, historiadora senegalesa que leciona na Cheikh Anta Diop University. “O Senegal tem recursos para investir esse dinheiro?” Além do que, acrescentou, “por que conceder um projeto sobre a Renascença Africana para coreanos? Temos escultores africanos muito bons”.

Décadas perdidas? Por toda a parte, as comemorações foram esparsas ou marcadas principalmente por visitas de dignatários de países vizinhos, como ocorreu recentemente em Camarões, sem grande afluência de público. “É difícil mobilizar as pessoas para essas comemorações, porque as flores da independência murcharam”, disse a historiadora. “Os últimos 50 anos não foram, absolutamente, de realização das esperanças e expectativas das populações.”

Para Jean-François Bayart, pesquisador e diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica, em Paris, houve importantes realizações desde a independência. As cidades da África Ocidental, por exemplo, cresceram enormemente e também continuaram se alimentando, conseguindo um equilíbrio que ele considera sem precedentes.

Mas nesse aniversário o que predomina é um mal-estar , acrescentou. “O balanço que se faz da independência não é brilhante e as pessoas falam de décadas perdidas. Não é tão catastrófico como afirmam, mas existem muitos problemas.” A própria noção de independência – num contexto de má governança, desigualdade econômica, pobreza e dependência de ajuda externa – tem sido questionada por intelectuais africanos.

Regularmente, vozes levantam-se contra o uso do franco africano, visto como um adjunto humilhante da moeda europeia. Ele tem a garantia de uma taxa fixa frente ao euro, mas as ex-colônias têm de manter uma parte substancial de seus ativos cambiais no Tesouro de Paris.

E a dependência de ajuda externa é grande. Em 2008, essa ajuda ficou entre um quarto e um terço dos gastos do governo em países como Burkina Fasso, Camarões e Mali.

Contra a fragilidade de instituições, intelectuais africanos e ativistas da sociedade civil se insurgem e se mobilizam, exigindo reformas. No Níger, houve protestos em massa no ano passado contra o recuo da democracia, conduzido pelo ex-presidente Mamadou Tandja. Na Guiné, este ano, manifestantes conseguiram que o poder fosse transferido da junta militar a uma liderança civil.

Mesmo no Senegal, considerado muitas vezes um exemplo porque nunca sofreu um golpe de Estado, escritores amplamente respeitados, como Abdou Latif Coulibaly , criticam o Parlamento por não ser mais do que um “instrumento a serviço do Executivo”. A democracia é refém das elites, diz ele, e seus livros são rotineiramente banidos das grandes livraria, em consequência.

Abdou Latif também culpa os cidadãos. Numa entrevista concedida há alguns anos para a revista francesa Politique Africane, afirmou que as pessoas erroneamente “acham que o poder é uma questão de essência, uma herança, alguma coisa que está no sangue, que o normal para um Estado é ser uma monarquia ilimitada”.

Fonte: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100613/not_imp565790,0.php

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s