Desigualdade persistirá na Cidade do Cabo mesmo após Copa, dizem analistas

BBC

Mesmo sendo a cidade que mais deve faturar com a Copa do Mundo, a Cidade do Cabo não deve mudar o seu cenário de desigualdade social, acreditam analistas do país entrevistados pela BBC Brasil.

A cidade já é o destino turístico mais procurado por turistas estrangeiros em toda a África, e, nesta semana, anunciou que espera encher seus cofres com cerca de US$ 1,5 bilhão trazidos por um milhão de torcedores que terão passado por ela até o final do Mundial.

Mas dados da ONU mostram que a cidade detém um dos piores índices de disparidade econômica do planeta, com apenas 3% da riqueza nas mãos dos 20% mais pobres.

“A ideia de que grandes eventos esportivos podem mudar o cenário de desigualdade é um mito”, disse à BBC Brasil Leonard Gentle, diretor do International Labour Research and Information Group, com sede na Cidade do Cabo.

“Pelo contrário, uma Copa do Mundo retira recursos que poderiam ser aplicados em setores como educação e habitação, e assim apenas perpetua a desigualdade.”

Para o ativista Mzonke Poni, da ONG Anti-Eviction Campaign, que trabalha na favela de Kayalisha, a maior da cidade, a população mais pobre se tornou “vítima” da Copa.

“Esperávamos que o torneio trouxesse desenvolvimento para a favela, com a construção de novas casas e o fornecimento de água, luz e esgoto. Mas não vimos nada”, afirmou.

Acesso

Em Kayalisha, o Mundial é transmitido por um telão instalado pela Fifa e pela prefeitura.

“Você tem que fazer com que os cidadãos mais pobres se sintam parte da Copa do Mundo, se sintam especiais”, disse à BBC Brasil o prefeito da Cidade do Cabo, Dan Plato. “E é isso o que estamos fazendo aqui, garantindo que todo mundo tenha acesso aos telões.”

Plato rebate as críticas sobre os gastos com o Mundial, dizendo que as pessoas precisam olhar para todo o contexto da realização do torneio.

“Para uma cidade se desenvolver, ela tem que ter uma infraestrutura sólida. E a Copa do Mundo nos ajudou a implantar essa infraestrutura”, afirmou ele à BBC Brasil. “O que temos hoje em termos de estradas, transporte e estádio é um legado para o povo da Cidade do Cabo.”

O prefeito lembra ainda que a construção dessas obras também gerou muitos empregos. Mas, para os críticos, isso não é suficiente.

“Estes são empregos braçais e temporários. As autoridades deveriam ter trabalhado no sentido de criar empregos mais sustentáveis, capacitando sua população para se manter no mercado de trabalho quando a Copa acabar”, explicou David McDonald, professor da Universidade Queens, do Canadá, e autor de um livro sobre a Cidade do Cabo.

Apesar das críticas, os analistas concordam que o Mundial também gerou efeitos positivos para a cidade e o país.

“Não podemos negar o grande impacto que o torneio teve no turismo, colocando a Cidade do Cabo e a África do Sul no mapa, e na maneira como o mundo vai passar a nos ver daqui para a frente”, disse Mike Morris, do Centro para Pesquisa em Ciências Sociais da Universidade da Cidade do Cabo.

“Outro fator muito importante foi o elemento de unificação e o nível de patriotismo que a Copa gerou. Nunca pessoas de diferentes origens e raças aqui haviam se reunido para apoiar uma mesma causa. Resta saber quanto tempo esse sentimento vai durar.”

Fonte: http://oglobo.globo.com/esportes/mat/2010/06/26/desigualdade-persistira-na-cidade-do-cabo-mesmo-apos-copa-dizem-analistas-916987857.asp

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