Vênus negra, o racismo de ontem e de hoje

O francês Abdellatif Kechiche narra história verídica e terrível que se passa no século 19, mas se mantém atual

Luiz Zanin Oricchio – O Estado de S.Paulo

Yahima Torres e Kechiche (Foto: Tony Gentile/Reuters)

Com Vênus Negra, o francês (nascido na Tunísia) Abdellatif Kechiche conta uma história pavorosa. Na Europa do século 19, a africana Saartjie (Yahima Torres) era exibida como curiosidade de feira, a Vênus Hotentote, mulher gorila, uma fera em forma feminina. Passou por Londres e fez sucesso nos salões parisienses, saindo de uma jaula, com uma corrente presa ao pescoço, dançando e, no fim, sendo tocada pelos incrédulos espectadores. Seu empresário recebeu uma nota alta do Museu do Homem para que ela se submetesse a um exame físico. Só que ela se recusou a mostrar uma parte íntima. Quando morreu em Paris, depois de decair e se tornar prostituta, Saartjie foi parar no mesmo museu. Os cientistas dissecaram o corpo, devassaram seus mistérios, construíram uma estátua de gesso e conservaram esqueleto e órgãos. Em 2002, o governo da África do Sul recupera os restos mortais de Saartjie, que hoje lá estão enterrados. A história pode ser horripilante, mas é significativa.

“E, infelizmente, muito atual”, confessa Kechiche. Ele acha que esse caso exemplar de racismo, endossado na Europa do século 19 tanto pela ciência como pelo senso comum, ainda persiste no presente. Ele se refere à depuração empreendida na França de Nicolas Sarkozy, que pretende expulsar ciganos do seu território. A intolerância racial pode ser a referência mais forte de Vênus Negra. Mas o par espetáculo-voyeurismo joga papel fundamental na construção do filme. Kechiche trabalha com cenas longas da exibição do corpo de Sarah (assim passou a ser chamada depois de ser batizada) a espectadores ávidos. “O filme é um olhar sobre o olhar do outro sobre esse corpo”, diz.

Corpo devastado pela tristeza e pelo modo de vida. A interpretação da cubana Yahima Torres, em seu primeiro papel no cinema, é magnífica. Há quem já fale em prêmio de melhor atriz. Mas houve, também, quem condenasse o diretor pela exibição do corpo de Sarah, em longas sequências em tempo real, como se ele, de alguma forma participasse daquilo que intenta denunciar. Kechiche se defende: “Eu precisava mostrar o esgotamento desse corpo até a sua mutilação final.”

De qualquer maneira, a sua forma de trabalhar não é novidade para quem conhece seu filme anterior, O Segredo do Grão, lançado no Brasil – longos planos em tempo real, um trabalho na extensão e na repetição. Pode encantar ou exasperar o espectador, dependendo do ponto de vista.

O outro filme da competição foi Attenberg, da diretora grega Athina Tsangari. Marina é uma jovem de 23 anos, ainda virgem, que vive com o pai, doente terminal de câncer em uma cidade à beira-mar. Marina acha a espécie humana estranha, vê programas sobre vida animal e se relaciona apenas com sua amiga Bella. Não é um grande filme. Mas a leveza de tratamento (e estilo) com que enfrenta temas como sexualidade, morte e desencanto, acabaram por agradar ao público. E também à crítica.

 Fonte: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100909/not_imp607027,0.php

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