Arizona endurece contra imigrantes ilegais, mas permanece um santuário para refugiados

The New York Times

Aqui no Arizona, os imigrantes ilegais são chutados para fora, mas os refugiados recebem um tapete de boas-vindas.

Enquanto as autoridades investem contra o que chamam de “invasão” de imigrantes ilegais, em sua maioria mexicanos, o Arizona recebe milhares de imigrantes legais de lugares tomados pelo pesar como a Somália, Mianmar e Iraque, além de ser conhecido por tratá-los incomumente bem.

De fato, a extensão seca do vale de Phoenix pode ser vista como um laboratório gigante de reassentamento. Bósnios aparam os gramados irrigados do Arizona Biltmore, mianmarenses contam com sua própria aula de pré-natal no hospital St. Joseph. Um criador de cabras sudanês está prosperando em um matadouro construído no deserto com empréstimo para microempresa. (Ele fica contente em demonstrar sua perícia em transformar cabras em carne.)

Hai Doo, um funcionário de lavanderia de Mianmar, conseguiu grandes subsídios para comprar sua primeira casa. Yasoda Bhattarai, uma mãe recente do Butão, obteve 10 semanas de hospital gratuito para salvar sua filha, que nasceu com tuberculose. “Sempre que as pessoas me perguntam sobre Phoenix, eu digo que é o melhor lugar”, ela disse.

Apenas três Estados aceitaram mais refugiados em uma base per capita nos últimos seis anos. O Arizona recebeu o dobro de refugiados per capita do que sua vizinha liberal, a Califórnia, e mais do que o dobro per capita que Nova York, Nova Jersey e Connecticut.

“Considerando as boas-vindas e receptividade que vemos, eu certamente colocaria o Arizona no topo”, disse Robert Carey, vice-presidente do Comitê Internacional de Resgate, que reassenta os refugiados em uma dúzia de Estados.

O trabalho contrasta com a fama do Estado de flagelo dos imigrantes ilegais, que os críticos culpam pelo aumento da criminalidade, por roubar empregos e sobrecarregar hospitais e escolas.

“Nós não somos anti-imigrantes, nunca fomos”, disse o senador estadual Russell Pearce, um republicano que é um dos maiores críticos da imigração ilegal. “Mas esperamos que as pessoas cumpram a lei.”

Pearce apresentou a nova lei que daria à polícia maior poder para interrogar as pessoas a respeito de seu status de imigração. O governo Obama processou, argumentando que a lei usurpa o poder federal e encoraja a discriminação.

Numericamente os grupos não se comparam; o Arizona recebeu aproximadamente 4.700 refugiados no ano passado, mas supostamente conta com cerca de 375 mil imigrantes ilegais. Os refugiados não são imigrantes econômicos, mas sobreviventes de guerra e perseguição que os Estados Unidos recebem por motivos humanitários e de política externa. Ao fugirem da violência, muitos refugiados atravessam ilegalmente fronteiras estrangeiras.

Os grupos de refugiados no Arizona às vezes se sentem pegos em meio a um fogo cruzado político, querendo enfatizar que seus clientes são imigrantes legais, sem tomar partido na guerra maior.

“Nós não queremos ficar na posição de dizer que um grupo é bom e o outro é ruim”, disse Robin Dunn Marcos, que dirige o escritório em Phoenix do grupo de resgate.

O Arizona atrai os refugiados porque o custo de vida é baixo e, até a recessão, o Estado contava com muitos empregos para pessoas que não falam inglês, como faxineiros e jardineiros. O sucesso inicial, com os bósnios e kosovares no final dos anos 90, e posteriormente com os órfãos da guerra no Sudão, ajudou a desenvolver o apoio local.

Os esforços se intensificaram após a contratação em 2002 de um novo coordenador estadual, Charles Shipman, que é casado com uma ex-refugiada cambojana e conhecido por seu talento em advocacia. Nos últimos anos, o Arizona recebeu três vezes mais refugiados do que quando ele chegou.

Shipman percebeu rapidamente uma escassez de intérpretes para uma população cada vez mais etnicamente diversa. Ele encomendou um estudo que apontou barreiras de linguagem “perturbadoras”. O grupo de resgate então o utilizou para obter um subsídio privado para início de um serviço de intérpretes. Ele agora opera em 14 línguas, incluindo kirundi (Burundi), tigrínia (Etiópia) e hakka (China).

Com a recessão, Shipman liderou uma ação para impedir que os refugiados recém-chegados se transformassem em moradores de rua. Graças a ele, o governo federal permitiu que o Arizona utilizasse parte de recursos federais em ajuda para aluguel e pediu que outros Estados fizessem o mesmo.

Isso beneficiou Harith Khalid Aziz, um refugiado iraquiano com mestrado, que estava ganhando pouco como funcionário de meio expediente em uma mercearia. Com esposa e um filho pequeno, ele disse que foi uma “sensação horrível” o medo do despejo.

Alguns poucos meses de ajuda o sustentaram até que encontrasse um emprego melhor. No Arizona, mesmo “se você não for da mesma raça, eles o tratam bem”, ele disse. “Esta é a base dos Estados Unidos.”

No ano passado, o governo federal recebeu 75 mil refugiados, de um total de 10,5 milhões em todo o mundo, e cobre grande parte das despesas de reassentamento. As autoridades estaduais administram o dinheiro e ajudam a decidir quantos refugiados podem receber; agências privadas cuidam dos casos, ajudando a encontrar moradia e emprego.

O Biltmore não apenas contratou refugiados, mas doou móveis usados para eles. A Tesseract School privada (preço: US$ 19 mil por ano), criou uma bolsa apenas para refugiados. Quando o grupo de resgate encorajou os clientes a praticarem atividades agrícolas, a Hickman’s Eggs doou 60 toneladas de esterco de galinha.

Hai Doo, o funcionário de lavanderia de Mianmar, achou que o programa para compra da casa própria era bom demais para ser verdade. Subsídios converteram suas economias de US$ 5 mil em uma entrada de US$ 24 mil para uma casa. Grande parte do dinheiro veio do Banco Federal de Empréstimo Imobiliário de San Francisco, que precisa gastar parte de seus lucros em auxílio moradia.

“Eu nunca imaginei que receberia uma ajuda como esta”, ele disse.

O verso da história do Arizona inclui o xerife de Maricopa County, Joe Arpaio, que conta com apoio em todo país ao divulgar sua severidade em relação aos imigrantes ilegais. (“O rumor é de que eu poderia concorrer a presidente”, ele disse em uma recente entrevista.)

Arpaio realiza batidas frequentes em bairros de imigrantes, parando pessoas por pequenas infrações e investigando seu status de imigração. Ele diz que essas batidas já resultaram na detenção de centenas de imigrantes ilegais. Os críticos dizem que elas espalham medo e molestam os moradores legais.

Victor Acevedo, um imigrante ilegal do México, disse que foi parado em janeiro, após deixar de dar seta ao dobrar uma esquina e foi encontrado em posse de uma pequena quantidade de maconha. Ele agora aguarda deportação em uma das famosas tendas-prisões de Arpaio, trajando o uniforme padrão: listas pretas e cueca cor-de-rosa.

Em uma entrevista ao lado da tenda sob um calor de 42ºC, Acevedo, 29 anos, disse que veio há nove anos em busca de uma “vida melhor”, encontrou um emprego de jardineiro, se casou com uma americana e teve dois filhos nascidos nos Estados Unidos. Ele foi deportado em 2008, mas voltou um ano depois para ficar com sua família.

“Nós estamos aqui ilegalmente, mas ainda somos seres humanos”, ele disse.

Os refugiados não parecem muito solidários. Os dois grupos frequentemente competem por empregos e moradias, e alguns refugiados dizem que são roubados por gangues de latinos.

Os Estados Unidos “defendem a lei e a ordem”, disse Wissam Salman, 35 anos, um zelador de hotel do Iraque. “Se não ficarem de olho nessas pessoas, será um desastre.”

Ibrahim Swara-Dahab, o criador de cabras sudanês, concorda.

“Eu tenho alguns problemas com os mexicanos; eles roubam minhas cabras”, ele disse. “Se eles não têm documentos, eles deveriam voltar para seu país.”

Swara-Dahab reconheceu que ele também atravessou uma fronteira ilegalmente quando fugiu para o Quênia, mas aquela era uma questão de vida ou morte.

“Aqui a situação é diferente”, ele disse. “Você precisa de documentos.”

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