Estrangeiros presos em penitenciárias de São Paulo contam suas histórias em documentário.

A húngara que transportaria do Rio de Janeiro para Budapeste diamantes
camuflados em três quilos de cocaína; o eslovaco que, afundado em dívidas de
jogo, pensou em uma forma “rápida e fácil de ganhar muito dinheiro”; o líbio
que teve “alguma coisa ilegal” encontrada na mala. Esses são alguns dos oito
personagens do documentário “Ela sonhou que eu morri”, dos paulistanos
Matias Mariani e Maíra Bühler, premiado este mês no Festival de Paulínia
(SP). Todos os presos são estrangeiros que relatam não apenas o que os levou
à prisão, mas também passagens da vida pessoal anterior às grades e o sonho
de deixá-las em busca de um recomeço.

A reportagem do *UOL Notícias* assistiu ao documentário, a convite da
produção, e conversou com os diretores. Parceiros de trabalho desde “Elevado
3.5” (produção de 2006 sobre o Minhocão, em São Paulo), eles contaram que a
ideia de mostrar estrangeiros presos no Brasil surgiu há dois anos, durante
os trabalhos de um longa-metragem de ficção sobre os nigerianos que vivem em
território paulistano.

Desde então, afirmam, foi um trabalho extenso junto a órgãos oficiais e na
coleta de depoimentos para fazer a triagem de personagens. Foram
entrevistadas mulheres presas em um prédio anexo do Carandiru e homens do
presídio de segurança máxima de Itaí.

De 30 histórias ouvidas, oito foram selecionadas para os 78 minutos do
documentário.
Assista ao trailer do documentário “Ela sonhou que eu morri”, produzido em
SP

   –

*As nacionalidades*

Além de Eslováquia, Líbia e Hungria, o filme traz também relatos de três
presos oriundos da África do Sul, um da Espanha e outra da República Tcheca.
Apesar das peculiaridades nas histórias de vida de cada um, em comum, todos
os oito estão presos nas duas penitenciárias brasileiras acusados de tráfico
internacional de drogas.

De acordo com os diretores, a pesquisa sobre os nigerianos e a participação
posterior no comitê paulista para imigrantes e refugiados –composto por
representantes de entidades públicas e privadas e vinculado à secretaria
municipal de Direitos Humanos –deram um suporte importante ao trabalho com
os estrangeiros presos.
*A burocracia anterior às filmagens*

“Foi bem difícil o acesso [aos presos], pois sabemos que o tema é delicado.
Demorou muito para termos uma posição oficial, o que nos gerou até uma certa
frustração”, admite Matias Mariani. “Mas, depois, acabamos até nos
surpreendendo; tínhamos as piores expectativas”, completou.

Antropóloga formada pela USP (Universidade de São Paulo), Maíra Bühler
destacou: “Deixamos claro [às autoridades do setor] que o objetivo não era
fazer um filme a respeito da situação carcerária dessas pessoas, mas deixar
que cada uma delas nos contasse sua história, ou não seria esse o filme.
Tivemos ajuda do pessoal da SAP (Secretaria de Administração Penitenciária
do Estado de SP) e de pessoas pontuais lá dentro, pessoas em cargos mais
baixos”, afirmou.

De acordo com a dupla, a produção precisou de autorização dos presos, de um
juiz de cada cidade onde ficam as penitenciárias e da SAP, além do contato
constante com os diretores das unidades prisionais –afinal, a cada sessão
de filmagens também era necessária a entrada da equipe com uma série de
equipamentos para as cerca de 4h de depoimentos de cada personagem.
*Dificuldades dos estrangeiros presos*

Indagados sobre a situação desses presos em penitenciárias brasileiras, os
dois diretores lamentaram a dificuldade de acesso deles a advogados ou mesmo
a seus familiares.

“O acesso a telefones e a visitantes praticamente não existe. No caso da
estrutura física para as mulheres, percebemos que há mais problemas [uma
personagem menciona que na cela para seis, dormem nove –três, no chão]. Mas
o que preocupa é ver que a maioria dos defensores públicos têm dificuldades
para se comunicar em inglês com esses presos e de entendê-los, além dos
consulados, que são muito ausentes”, diz Maíra.

Já o contato com os presos surpreendeu os dois jovens cineastas. “Vivemos
tudo muito intensamente, e não tem como a gente não se comover nesse
encontro com pessoas que estão em espaços, em realidades históricas. E
confesso que sofri pela história de alguns; ficam esses resíduos biográficos
–e a história de vida ali é muito menos romântica, com pedaços e
estilhaços, ainda que tivéssemos tido o tempo todo o cuidado de não julgar
ninguém”, conta a diretora.

“Esperamos que o público tenha generosidade ao ouvir essas histórias e que
se encantem como a gente por essa fragmentação de situações histórias e
políticas diferentes”, reforçou Matias.

No documentário, os presos falam na maior do tempo sentados em uma carteira
escolar –uma maneira, segundo os diretores, de unificar os espaços das duas
penitenciárias e de remeter a uma instituição (no caso, a escola) onde as
regras também são uma constante.

Finalizado e premiado, agora o documentário está em busca de uma
distribuidora para que possa ser exibido nos cinemas brasileiros.

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/07/26/estrangeiros-em-penitenciarias-de-sao-paulo-contam-suas-historias-em-documentario-feito-por-brasileiros.jhtm

Fonte: Portal de noticias UOL – Postado por Mario Lira

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s