Parentes de vítimas de ‘Titanic africano’ buscam corpos de mil mortos

Há dez anos, Idrissa Diallo perdeu três de seus filhos no naufrágio do barco Joola, no Senegal, e diz que não descansará enquanto a justiça não for feita. O desastre foi um dos mais graves acidentes marítimos na história mundial, resultando na morte de 1.800 pessoas.

O acidente com o Joola fez mais vítimas fatais do que o do Titanic, em 1912, em que 1.563 pessoas foram mortas. O décimo aniversário da tragédia está sendo lembrado nesta quarta-feira.

”Não tenho raiva porque meus filhos morreram, essa foi a vontade de Deus. Tenho raiva pela maneira como agiram após o acidente”, afirma Diallo, que hoje preside uma associação de parentes de vítimas do Joola.

Com seu filho de cinco anos em seu colo, ele calmamente recorda dos acontecimentos da manhã de 26 de setembro de 2002.

”Eu estava nos Estados Unidos visitando minha família quando recebi um telefonema pela manhã dizendo que o Joola havia afundado e que nenhuma criança à bordo havia sobrevivido. Meus três filhos (com idades de 8, 13 e 15) estavam no navio, retornando de uma visita à avó deles, em Casamance, de onde vem a minha família.”

A província de Casamance, no sul do Senegal, é separada do resto do país pela Gâmbia, fazendo do transporte marítimo a maneira mais fácil de se chegar às regiões ao norte do país e à capital, Dacar.

Maioria de crianças

Naquele dia, somente 64 pessoas das que estavam à bordo da embarcação foram resgatadas com vida.

Os corpos de cerca de mil passageiros, muitos dos quais eram crianças que retornavam a Dacar para o início das aulas, permanecem no navio afundado até hoje.

O navio só tinha capacidade para abrigar cerca de 580 pessoas – um limite que era ignorado regularmente, com centenas de pessoas viajando sem bilhetes.

Mesmo sendo capaz de falar a respeito da tragédia, Diallo, assim como milhares de outros familiares das vítimas, não pôde velar seus mortos.

”Como posso dizer que superei meu pesar se não encontrei os corpos das minhas crianças, se me levou tanto tempo para chegar a acreditar que elas haviam realmente morrido? E o governo se recusa a sequer falar a respeito”, afirma.

Uma das principais exigências dos parentes das vítimas é que o barco possa ser erguido do fundo do oceano, para que os parentes reivindicar os restos de seus entes queridos.

O Joola não foi movido após ter afundado, mas o ministro do Meio Ambiente do Senegal, Haidar El Ali, afirma que o país dispunha de equipamentos para realizar a operação.

Na época do acidente Ali integrava uma escola de mergulho e uma equipe de resgate que, segundo ele, dias após o acidente teria sido capaz de trazer os destroços do navio para a superfície.

Ele afirma que a equipe de resgate ficou aguardando orientações do governo para saber como proceder em relação aos destroços do navio, mas essas instruções nunca vieram.

Assim, o navio foi deixado aonde ele se encontrava, a 18 metros de profundidade da costa de Gâmbia.

Esperança

Diallo afirma que a associação de famílias de vítimas se encontrou com o novo primeiro-ministro senegalês, Abdoul Mbaye, que tomou posse em abril deste ano.

No encontro, os familiares dos que morreram no Joola voltaram a pedir que a embarcação seja retirada do fundo do oceano e que seja construído um memorial em homenagem às vítimas, uma promessa feita a eles por governos anteriores, mas que não foi cumprida.

”Encontremos um caminho para reabrir o caso, agora que o governo anterior não está mais aqui para impedir que a justiça seja feita. Tenho fé que o novo governo nos ouvirá. Eu comentei com o novo primeiro-ministro que uma tragédia pode ser útil a um país, se ela for reconhecida como tal”, afirma Diallo.

Fonte:http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/09/120926_titanic_africano_bg.shtml

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